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Steinbeck e John Ford

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.02.08

 

As Vinhas da Ira.A fotografia, aquele contraste a preto e branco, em planos impossivelmente poéticos e dramáticos… é o que retive da primeira parte do filme. A casa vazia, os campos abandonados, a seca…

Toda a viagem forçada rumo a oeste, a família deslocada na busca desesperada da sobrevivência… A dignidade humana, mesmo nas maiores privações e dificuldades.

E aquela mãe. A mãe que transforma a dor em força, que está, que permanece, que não desiste. A mãe que abraça, que conforta, que anima.

É todo o povo americano que aqui é lembrado por John Ford, todo o seu sofrimento e coragem. É um poema à dignidade de homens e mulheres que tudo perderam menos a sua humanidade.

É toda a atmosfera da Grande Depressão. Com aqueles planos, aqueles contrastes, que são simplesmente de tirar o fôlego. Como John Ford consegue aquela atmosfera a preto e branco… é um verdadeiro mistério.

 

 

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publicado às 15:53

D. Juan de Marco

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.02.08

Marlon Brando, um psiquiatra em fim de carreira, um pouco murcho e desencantado, é chamado de urgência para dissuadir um jovem de saltar do telhado de um prédio. Elevador exterior, lá sobe até ao jovem e vê que se trata de D. Juan, nem mais nem menos. Resolve entrar na história e assumir a pele de um nobre espanhol, convencendo-o a descer.

Já no hospital psiquiátrico, este D. Juan, que veste a fatiota e fala de uma forma poética e romanesca, conta o seu passado. Uma história digna de um romance de aventuras, com amores e paixões, duelos e mortes trágicas! Mas o que mais perturba o psiquiatra e que o leva a querer acompanhar o jovem até ao fim é a forma como D. Juan fala do amor e das mulheres.

Entretanto o nosso D. Juan vai mudando a vida de alguns naquele hospital. E o nosso psiquiatra não será excepção, ao ser confrontado com o seu próprio deserto e desencanto. Magnífica troca de papéis…

Os primeiros efeitos começam a notar-se. Pequenos gestos que começam a dar uma nova cor à sua vida. Convidar a mulher para um jantar romântico, surpreendê-la de forma teatral, com música e tudo! A cumplicidade e o riso, as conversas brincalhonas e metafóricas, a paixão como a chama que renasce, o motor de tudo, afinal! Perguntar-lhe-á no jardim quais os seus sonhos. Ela, que sempre viveu em função dos sonhos dele… fica confusa no início, depois comove-se.

Mas há um prazo, ditado pela direcção, para o tratamento. Exigem ao psiquiatra o início da medicação, é tempo do jovem descer à terra.

Magníficas cenas finais, com D. Juan a ser avaliado pelos serviços que decidirão sobre o seu destino, internamento ou liberdade.

E uma praia paradisíaca em que o jovem encontra a sua amada. Aquela das suas histórias, a única entre mil. Acompanhado ao longe pelo casal em nova lua-de-mel que pode ser para sempre. Porque não?

 

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publicado às 15:30

A estranha lógica dos afectos

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.02.08

 

A Festa de Babette: Imaginem uma aldeia dinamarquesa isolada, perto do mar. Chuva e nevoeiro. Uma comunidade puritana, penso que luterana. Coloquem lá duas irmãs já de uma certa idade, filhas de um Pastor luterano e que, de certo modo, continuam o trabalho do pai. Lêem em grupo textos da Bíblia e apoiam os idosos levando-lhes sopa quente, que elas próprias preparam. Enfim, a austeridade levada a extremos. Num local inóspito e isolado, em que a suavidade da natureza das duas irmãs e da beleza dos seus traços, apesar da idade, destoa completamente naquela comunidade.

Porque, como nos mostrará este filme, a natureza humana é o que de mais estranho e maravilhoso há para descobrir, esconder, viver ou abafar. Estas duas irmãs, de natureza artística, sensível, afinada, um autêntico milagre da natureza, surgiram assim, naquela comunidade, com aquele pai. E viram os seus sonhos completamente destruídos pela sua mesquinhez e insensibilidade, pela sua incapacidade de amar, fechado em si próprio e nos textos bíblicos de onde toda a alegria e prazer foram erradicados.

É nesta comunidade que irá aparecer Babette, a mulher misteriosa vinda de Paris. Bonita, sofisticada, citadina, encolhida numa capa. E que pedirá guarida na casa das duas irmãs. Vem com uma indicação de um famoso tenor, Papin, que já ali passara uns tempos, há muito tempo… Esse pormenor fica para quando virem ou revirem o filme...

As duas irmãs explicarão a Babette não ter condições económicas para lhe pagar um salário. Mas Babette fica. Ensinar-lhe-ão a cozinhar aquelas sopas insípidas de pão escuro e peixe (penso que era esta a mistura).

Apesar da austeridade da vida das duas irmãs, tornar-se-ão amigas inseparáveis, de um afecto polido e suave. Babette trouxe-lhes o sol de Paris, sem dúvida! E um certo conforto requintado no pormenor do tabuleiro com chá, com que brinda o grupo nas reuniões luteranas. E as irmãs já não se imaginam sem ela!

Um dia Babette conta-lhes que o número do seu bilhete da lotaria, de não sei quantos mil francos, foi premiado. As duas irmãs temem que se vá embora, agora que enriqueceu. Para comemorar os cem anos do nascimento do pai, as irmãs pensam num jantar. E Babette pede-lhes um favor: que seja ela a preparar a festa, encomendar tudo e  confeccionar tudo! Embora um pouco apreensivas, as irmãs aceitam. Risível ver o ar espantado das pessoas ao ver chegar, de barco, uma enorme tartaruga, perdizes, vinhos franceses de diversas marcas e colheitas, tudo segundo as suas rigorosas instruções.

A comunidade não pode recusar o convite das duas irmãs para esse jantar, aos seus olhos pecaminoso, porque não podem nem devem ceder a qualquer tipo de prazer, em circunstância alguma! Reúnem-se para combinar isso mesmo: farão o sacrifício de, sejam quais forem as iguarias que lhes apresentem, resistir estoicamente a qualquer prazer!

Há também um velho oficial, ainda bonito, elegante e viajado, que também foi convidado. Mas este pormenor fica igualmente para quando virem ou revirem o filme…

E é a festa que melhor mostra a nossa natureza humana! Que nenhuma lei puritana poderá condicionar ou negar. A alegria e descontracção serão crescentes, à medida que um novo prato aparece com o vinho correspondente. O rosto crispado e fechado dos nossos luteranos começa a descontrair, as discussões disfarçadas sobre pequenos pormenores transforma-se em sorrisos tímidos no início, cada vez mais naturais e expressivos a pouco e pouco… A austeridade dá lugar ao calor humano, à alegria de partilhar, à expressão de afectos. Acabarão a cantar cá fora, ao sair, felizes!

Tudo vai dar àquela festa! E ao encontro tão improvável, e por isso tão especial, das três mulheres. Numa comunidade perdida na costa dinamarquesa.

 

 

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publicado às 16:21

Picnic ou a dança nupcial

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 04.02.08

Já viram a dança nupcial dos grous? Em Picnic há a dança nupcial, a poesia, a graciosidade, o bailado de dois grous humanos: Kim Novak e William Holden. A poesia em estado puro, antes de todas as palavras.

A figura que liga as várias personagens, que as entende, sentimentos e emoções, desejos e sonhos, fragilidades e coragem, é a velha senhora que mora ao lado da mulher e das duas filhas. Acolhe o rapaz que chega com a roupa do corpo e dá-lhe trabalho. Dirá de forma encantadora, É bom voltar a ter um homem cá em casa. De certo modo é ela a repor no rapaz a noção de dignidade perdida nos azares da vida. Acredita nele, nas suas capacidades, antes mesmo da rapariga.

Mas a sociedade tem formas de incluir e excluir conforme os seus interesses. Kim tem acesso ao seu lugar pela sua incrível beleza. Em William a beleza e o porte atlético jogarão contra si. O futuro de uma pessoa pode ser terrivelmente condicionado por preconceitos mesquinhos, pela mediocridade dos poderosos.

O que ninguém conseguirá condicionar é a maravilhosa força da natureza. Quando algumas pessoas se encontram acontece a poesia. É mágico! Não é muito frequente, é até uma sorte dos diabos isso acontecer… é o que nos diz este filme. Que seria um terrível pecado perder essa oportunidade de redenção (para ele), de ser amada (para ela). E há que vencer o medo de não conseguir realizar os sonhos: uma última oportunidade no caso do rapaz; o desejo de ser tratada como mais uma rapariga, no caso da rapariga; ver a filha integrar-se na melhor sociedade da cidade, no caso da mãe da rapariga.

Mil vezes a doce e frágil felicidade do que o conformismo e a desistência. O preço a pagar pela felicidade pode matar a própria felicidade, mas eles estão dispostos a arriscar. Porque a alternativa seria ainda mais terrível! E até pode ser que tenham sorte. Eles não hesitam, não têm dúvidas. Eles sabem, antes mesmo de falar. Há laços invisíveis a uni-los. E isso vê-se na dança, no tal picnic…

No fundo sabemos que têm a coragem e a inspiração para ultrapassar tudo isso. Mesmo contra todas as probabilidades. Tão poética nos surge Kim, de mala na mão, a despedir-se da mãe e da velha amiga da família, antes de seguir William nessa aventura...

 

Muitos dias depois... encontrei o Picnic neste outro lugar... que já me deu o Rio sem Regresso (como surpresa).

 

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publicado às 16:33


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